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Ar Fresco

terça-feira, janeiro 04, 2005

Ensino Superior e a "massa crítica"

Parece que o tema da educação está outra vez na agenda dos partidos e dos media. Hoje a edição do Público tem dois artigos: um sobre a avaliação das universidades; e outro sobre a falta de "massa crítica" produzida pelas nossas universidades. O autor deste último artigo, Eduardo Alexandre Silva, põe mesmo o dedo na ferida ao afirmar:

(...) a diferença é que hoje a grande maioria das nossas universidades não produz massa crítica, mas sim técnicos ou licenciados direccionados para um tipo de função mecanizada do mercado de trabalho. Saem da universidade e já estão dentro do "sistema", onde quem questiona muito é olhado com estranheza pelos seus pares. Não se discute nada, apenas se confirma o quotidiano com o óbvio. Durante a universidade, não se "aprende a perceber", mas sim a decorar. "Marrar" é palavra de sucesso para o jovem estudante. Não é nada difícil um aluno cábula terminar a sua licenciatura, com uma média razoável, devido apenas aos esquemas de "copianços". Por cá, os alunos são formatados de forma a possuir um pensamento idêntico ao professor. (artigo completo aqui)

De facto, apesar de o curso que tirei (LLM) não preparar os alunos, ao nível da licenciatura, para nenhuma profissão técnica, não havia, na maior parte das cadeiras, liberdade para seguir um caminho diferente do indicado pelos professores. Na teoria poderíamos apresentar novos caminhos, desde que acompanhados de uma boa argumentação, mas na prática isso não acontecia, pois era raro o professor que aceitava os "argumentos". No quarto ano, quando numa cadeira (Teoria da Literatura) nos deparámos com um professor que exigia a nossa perspectiva, o Professor Miguel Támen, os alunos entraram em pânico, pois em nenhuma altura isso havia acontecido nos três anos anteriores. Se isto acontece num curso de Literatura, agora imaginem em cursos mais técnicos, mais orientados para uma saída profissional concreta no final do curso...

Só poderá haver massa crítica quando tal for exigido ao aluno, e isso terá de acontecer gradualmente ao longo da licenciatura, mas desde o primeiro ano. Com o "acordo" de Bolonha e a redução da licenciatura para três anos lá se vai a a exigência de espírito crítico, ficando esta exigência para as pós-graduções e para os mestrados... O pior é que todos nós sabemos como é que estes são ministrados em Portugal...

4 Comments:

  • Pessoalmente, estou bastante convicto que o processo de Bolonha seria positivo para Portugal.

    A maioria dos cursos (ditos superiores) tem várias cadeiras onde não se aprende nada de importante. Retirar essas cadeiras e passar as de carácter generalista para a segunda fase faz todo o sentido.

    O meu curso (marketing) poderia ser dado em 2 anos e meio,com muito mais eficiência.
    Claro que os cursos mais puxados não podem ser comparados ao meu, mas o processo de Bolonha não vai ser aplicado da mesma forma em todos os cursos.

    Prefiro ter opção de fazer pos graduações diferentes com mais facilidade a ter cursos de 4 e 5 anos que são iguais para todos nao respondendo a necessidades específicas do mercado de trabalho

    By Blogger Hugo Garcia, at 4:48 da tarde  

  • Claro que existem muitas cadeiras só para encher currículos...

    Contudo, a ideia que hoje subsiste é a de que as licenciaturas são generalistas e as pós-graduações especializadas; e ainda que só os cursos que são ministrados em politécnicos é que são técnicos...

    Concordo que o "processo de Bolonha" possa trazer algumas coisas boas, embora a ideia que lhe subjaz é a harmonização do ensino na Europa...

    Mas já que vem, aproveitemo-lo para melhorar o muito que está mal!

    By Blogger TA, at 5:06 da tarde  

  • Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    By Blogger Rita Matos, at 12:15 da manhã  

  • Também eu, quando optei pelo curso de Línguas e Literaturas Modernas, tinha em vista um dia vir a fazer parte da distinta classe dos professores, e talvez tentar promover alguma "massa crítica", pelo menos junto de alguns.

    À medida que os anos na universidade foram passando, fui-me confrontando com a "terrível realidade": a grande maioria das pessoas com as quais me deparei (alunos e professores) naquele que esperava ser um espaço de debate de ideias e de confronto de opiniões não estava interessada em “massa crítica”. Os alunos estavam interessados em passar cadeiras, sem qualquer preocupação em atingir mais do que um nível medíocre (todos nós nos lembramos das expressões de regozijo com que certos colegas emergiam empunhando um orgulhoso 10), e os professores (salvo raras e muito prezadas excepções) não desejavam mais do que ver reflectidas as suas próprias ideias nos exames que analisavam minuciosamente em busca de citações de autores que tinham mencionado nas aulas.

    Penso que a solução para o problema da ausência de pensamento crítico entre a classe estudantil terá muito mais a ver com uma selecção mais cuidadosa dos professores do que com a duração das licenciaturas. Mas como esta selecção é feita com base na quantidade de pós-graduações, mestrados e doutoramentos (que, por sua vez, foram leccionados por outros que também não estão interessados em espírito crítico) obtidos pelo candidato, deparamo-nos com um ciclo vicioso difícil de quebrar...

    By Blogger Rita Matos, at 12:55 da manhã  

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